Deus me acordou cedo.

De alguma maneira, isso soa para mim como um daqueles pequenos sinais:“Filho, quero que você levante cedo.”

Escrevo este texto com muita presença — se é que é possível ter “muita presença”, rsrs.

Escrevo sem conceitos ou preconceitos, na minha velocidade, seguindo aquilo que existe dentro de mim neste momento.

Alguns pensamentos passam pela minha cabeça. Penso nos meus projetos, em qual deles faz mais sentido, qual é realmente aplicável e, principalmente, em qual deles Deus está comigo.

Às vezes fico imaginando qual daria certo.

Se fosse justamente o mais simples, seria muito bom. Mas existe um ponto em que começar a perseguir uma ideia parece quase como forçar alguma coisa. E talvez o querer de Deus seja maior que o meu.

Então preciso buscar direção para o próximo passo.

Acordei também com certa preguiça.

Enquanto ainda despertava, tentei mentalizar aquilo que é importante para mim neste dia: fluidez, naturalidade, presença.

O que realmente precisa ser feito hoje?

Talvez eu esteja vivendo um período de adaptação, meu caro amigo.

E adaptações têm algo curioso. Existem momentos de deleite, mas também existe dor. Afinal, a nossa carne deseja constantemente o conforto da permanência, da repetição, da mesmice.

Às vezes, meu caro leitor, minha alma parece buscar até mesmo o tédio.

E ela gosta dele.

Talvez porque o tédio me provoque.

Quando não há tanta coisa acontecendo, alguma coisa dentro de mim começa a se movimentar.

Ultimamente, minha alma vem tentando me comunicar algumas coisas.

É desafiador. Eu sei.

Mas também sinto que é algo que precisa ser vivido.

Tenho percebido, por exemplo, que estou comendo mais doces. Às vezes parece simplesmente vontade; outras vezes percebo ali um impulso emocional.

Também tenho me notado mais ansioso.

E justamente por isso presença é uma das coisas que mais busco neste momento.

Quero fazer aquilo que é simples.

Fazer aquilo que precisa ser feito.

Sem toda aquela camada de embelezamento que o meu perfeccionismo detalhista gosta de colocar sobre as coisas.

Quando o perfeccionismo começa a pesar?

Às vezes eu me pergunto:

O que me faz ser tão detalhista?

E em que momento o cuidado se transforma em perfeccionismo?

Tenho uma percepção muito particular sobre isso.

Acredito que o perfeccionismo começa quando aquilo que fazemos passa a machucar nossa própria alma.

Quando criar se transforma em peso, talvez seja hora de observar.

Porque arte não deveria ser um fardo.

Arte também pode ser leve.

E, afinal, quem determinou que determinada coisa precisa obrigatoriamente ser feita de determinada maneira?

Os próprios padrões não mudaram incontáveis vezes ao longo dos anos?

Então por que nos tornamos tão exigentes conosco?

Pense na época dos nossos avós.

Na casa deles, ou talvez na fazenda, não existiam tantos floreios.

A vida muitas vezes era simples.

Mas era rica em bons momentos.

Quem não guarda alguma lembrança de uma reunião de família, de uma mesa cheia, de uma festa de Natal ou simplesmente de pessoas queridas conversando?

Essas lembranças me fazem pensar sobre simplicidade.

Sobre voltar à essência.

Sobre descobrir novamente o que realmente importa.

Até que ponto é suficiente?

A evolução humana é maravilhosa.

Tecnologia, conforto, informação, possibilidades.

Conquistamos muita coisa.

Mas existe uma pergunta que cada vez mais aparece dentro de mim:

Até que ponto será suficiente?

E eu também te convido a fazer essa pergunta.

Até onde precisamos chegar?

Porque evolução não deveria necessariamente significar exigir cada vez mais de nós mesmos.

Talvez seja justamente o contrário.

Talvez todo esse progresso pudesse nos permitir exigir menos.

Ter mais tempo.

Respirar.

Contemplar.

Estar perto de pessoas que amamos.

Viver.

Mas, às vezes, somos levados pelas ondas dos ambientes em que estamos.

Todo mundo corre.

Então corremos.

Todo mundo produz.

Então precisamos produzir.

Todo mundo parece estar construindo alguma coisa.

Então sentimos que também precisamos construir.

Por isso considero tão importante criarmos nossos próprios ambientes e nos cercarmos de pessoas que nos fazem bem.

O progresso deveria nos aproximar de uma vida cheia de sentido e significado.

Deveria nos devolver tempo.

Não simplesmente preencher todas as nossas horas com novas ocupações.

Por que precisamos estar sempre ocupados?

Até que ponto viveremos tentando permanecer ocupados?

Essa pergunta tem me feito olhar para dentro.

Será que, em alguns momentos, estou tentando fugir de alguma coisa?

Será que a minha ansiedade e essa vontade maior de comer doces estão tentando esconder alguma coisa?

O que minha mente está tentando tapar?

E talvez exista outra pergunta ainda mais importante:

O que o silêncio está tentando me dizer?

Sinto que existe dentro de mim uma espécie de bússola.

Ela aponta para determinadas coisas.

Coisas mais construtivas.

Coisas que parecem fazer sentido.

Mas até que ponto continuar me ocupando vai ajudar a encontrar essa direção?

Viver é muito interessante.

Sentir também.

Mas nem sempre é agradável perceber que aquilo que estamos enfrentando é realmente difícil.

Podemos ter amigos maravilhosos.

Podemos ter pessoas ao nosso redor.

Ainda assim, existem partes da vida que são somente nossas.

Somos nós conosco mesmos.

Harry Potter e os desafios que aumentam

Falando em desafios, lembrei de Harry Potter.

Ao longo dos livros, Harry vai enfrentando desafios cada vez maiores.

Existem dores.

Existem momentos em que as pessoas o julgam.

Às vezes até ele próprio se julga.

Em determinados momentos, amigos se afastam dele; em outros, é ele quem se afasta.

E conforme a história avança, parece que os desafios acompanham seu crescimento.

Eles ficam maiores.

Mais complexos.

Mais profundos.

Mas Harry também conta com seus amigos.

E isso sempre me chamou atenção.

Porque acredito que, assim como nas histórias, nós também temos uma espécie de magia na vida real.

Não estou falando necessariamente da magia com varinhas, feitiços e escolas de bruxaria.

Estou falando da capacidade humana de continuar.

Da amizade.

Da esperança.

Da fé.

Da coragem de enfrentar algo mesmo sem saber exatamente como aquilo terminará.

Quem sabe mais para frente eu escreva sobre minha interpretação do universo de Harry Potter, porque existe muita coisa naquele mundo que considero fascinante.

Mas o que me chama atenção agora é essa identificação.

Assim como Harry, sinto que estou atravessando uma fase particularmente desafiadora da minha vida.

Às vezes quero simplesmente recuperar o fôlego para continuar.

E, curiosamente, neste momento não sinto vontade de buscar cada vez mais.

Quero buscar cada vez menos.

Menos ruído.

Menos excesso.

Menos distração.

Quero encontrar aquilo que realmente faz diferença.

Recolher-me à essência para permitir que aquilo que existe dentro de mim possa novamente brilhar.

As coisas também chegam com atraso

Às vezes sinto que meu corpo responde com certo atraso às coisas que vivo.

Quase como um delay emocional.

Talvez alguma situação aconteça hoje e eu consiga continuar normalmente.

Mas, algum tempo depois, meu corpo mostra que aquilo também deixou marcas.

Isso me faz perceber o quanto consigo suportar, mas também me lembra que tudo tem consequências.

E então surge outra pergunta:

Que sementes estou plantando hoje para o meu futuro?

As minhas ações atuais estão construindo a vida que desejo encontrar daqui a algum tempo?

Acredito que estou no caminho, queridos leitores.

Não porque tenha encontrado todas as respostas.

Longe disso.

Mas porque sinto que estou aprendendo a ser fiel àquilo que realmente me faz bem.

E existe uma diferença importante aqui.

Não estou falando apenas daquilo de que gosto.

Também não estou falando dos sonhos, fantasias e ilusões que minha cabeça às vezes constrói.

Estou falando daquilo que me conecta com a presença.

É isso que venho buscando com o meu viver.

Escutar a si mesmo também exige coragem

Viver alinhado com aquilo que faz sentido é desafiador.

Escutar a si próprio é desafiador.

E talvez ainda mais difícil seja realmente fazer aquilo que sabemos que é bom para nós.

Até descansar pode se tornar difícil.

Às vezes nossa mente entra em uma luta constante contra nós mesmos.

Só Deus para ter misericórdia da gente.

Mas acredito que existe algo importante no ato de se escutar.

Escutar verdadeiramente.

Não significa necessariamente obedecer imediatamente a cada emoção.

Significa ouvir.

Observar.

Acolher.

E depois agir dentro daquilo que é possível.

Às vezes você pode ouvir um grito vindo do fundo da sua própria alma:

“Rafael, pelo amor de Deus, eu quero parar!”

Então você escuta.

Respira.

Reflete.

Deixa a emoção baixar um pouco.

E pergunta:

“O que sobra depois disso?”

Talvez o que permaneça seja muito simples.

Sua alma está pedindo descanso.

E talvez você não tenha percebido isso durante semanas.

Eu tenho uma percepção muito bonita sobre a alma.

Para mim, ela é essa conexão misteriosa entre nossa experiência humana e algo infinitamente maior — Deus e sua inteligência magnífica.

É como um encontro entre espírito e carne.

Por isso acredito que vale a pena ouvir.

Acolher.

E fazer aquilo que está ao nosso alcance.

Estou experimentando trabalhar menos

Uma das coisas que quero experimentar agora é trabalhar somente seis horas por dia.

Não sei exatamente como isso vai funcionar.

Mas quero tentar.

Quero deixar as outras horas para aquilo que me recarrega.

E, principalmente, para coisas que não precisam produzir retorno algum.

Isso é importante.

Porque parece que nos acostumamos a perguntar qual retorno tudo vai trazer.

Retorno financeiro.

Retorno profissional.

Retorno social.

Retorno em produtividade.

Mas algumas coisas simplesmente podem existir.

Uma caminhada.

Uma conversa.

Um livro.

Uma tarde tranquila.

Uma oração.

Um momento sozinho.

Uma música.

Cuidar de mim.

Nem tudo precisa virar resultado.

Talvez determinadas coisas existam justamente para nos lembrar de que nós também existimos.

Dê uma chance a você

Por isso te digo, meu querido leitor:

Nada melhor do que nos darmos uma chance.

Uma chance para nossa felicidade.

Uma chance para aquilo que realmente nos faz bem.

E novamente faço aquela distinção: não necessariamente aquilo que apenas nos agrada.

Porque podemos nos perder buscando exclusivamente prazeres.

Existem coisas extremamente prazerosas que, no longo prazo, não contribuem necessariamente para nossa evolução como pessoas nesta Terra.

Dar uma chance a si mesmo significa nutrir aquilo que existe de mais precioso dentro de você.

Afinal, existe uma pessoa que estará com você durante toda a sua vida:

Você.

E uma das coisas mais interessantes que venho aprendendo é justamente me tornar essa companhia.

Durante muito tempo podemos procurar nos outros aquilo que sentimos faltar dentro da gente.

Pessoas.

Ambientes.

Projetos.

Reconhecimento.

Experiências.

Mas talvez exista alguém que você ainda precise conhecer melhor.

Você mesmo.

A pessoa que pode caminhar ao seu lado durante toda a vida já está aí.

Neste exato momento, ela está lendo este texto.

Talvez só precise ser descoberta.

E agora chegou a sua vez.

Quem é a sua melhor companhia?

Pense naquela pessoa que você ama.

Na maneira como você cuidaria dela.

Na paciência que teria.

Nas palavras que escolheria.

No descanso que recomendaria.

No abraço que daria.

Agora me responda:

O que te impede de tratar a si mesmo da mesma maneira?

Foi um prazer estar contigo neste texto.

Te encontro nos comentários.

E não vou prometer um próximo post porque, sinceramente, nem sei se haverá.

Talvez isso também faça parte de aprender a viver um pouco mais no presente.

Até mais.

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